As Cinco Fases do Nascimento
 

Paul C. Boyesen*

 

I. A fase faltante

A concepção das pulsões
Concepções essenciais e culturais
Idéia e realidade

II. As cinco fases do nascimento

A concepção
A encarnação
O movimento
A passagem
União – reunião

III. Aplicações gerais

Diagnósticos
O círculo psico-orgânico
Uma psicoterapia global

I. A fASE FALTANTE

Neste texto, desejo ressaltar a utilização real que se pode fazer em terapia dos princípios que elaborei sob o título : Os cinco passos para o real 1 , bem como em meus artigos sobre Esperança-Crença-Conhecimento. Empregarei neste texto o termo fases de nascimento pois faço referência a uma linguagem terapêutica em que os processos de nascimento fazem parte integrante das ferramentas terapêuticas.

Em Os cinco passos para o real , a que me referi anteriormente, proponho uma reflexão geral sobre os contratos fundamentais de nascimento e de sensologia2 (contratos de vida pessoal) de uma pessoa. Foi precisamente integrando os processos de nascimento em minha prática terapêutica desde 1976, em grupo ou individualmente, que cheguei à conclusão de que essas fases são significativas tanto em terapia quanto de modo mais geral na experiência diária. Nesta época, quando uma pessoa reinventava seu próprio nascimento, tanto em exercícios de grupo apropriados quanto por iniciativa própria espontânea em momentos não previstos, observei quatro fases: encarnação-movimento-passagem e união (realização). Encarnação é "estar" no próprio corpo. Movimento é "o corpo em movimento" . Passagem é "a passagem pelo obstáculo" (o canal de nascimento, etc.) . União é a chegada e a realização nutriente.

O que é estranho é que foram precisos quase dez anos para que eu aceitasse a complexidade e o valor fundamental de uma quinta fase que faltava, mas que por outro lado, eu havia observado. É como se eu não lhe permitisse me pertencer no plano pessoal enquanto terapeuta, mas a aceitasse unicamente a partir de um ponto de vista filosófico e religioso.

Esta fase faltante preocupou-me durante vários anos e eu ficava muito reticente em integrá-la à minha prática como psicoterapeuta. No entanto, as questões relativas a essa fase não me deixavam, mesmo que eu tentasse me impedir de pensar no assunto . Esta quinta fase faltante era de fato a primeira fase, isto é, a concepção.

A semente de uma flor tornou-se uma flor e não uma árvore, nem uma pedra. Ela foi concebida.

No início dos anos 80 eu comecei então a atribuir muito mais importância ao silêncio da criação interior em que múltiplas formas de concepção "menores" ou "maiores" , "funcionais" ou "essenciais" podiam existir.

No final dos anos 70 eu já havia tomado consciência dos grandes riscos que comportam as intervenções e a utilização de exercícios em terapia psico-corporal; certamente, essas intervenções devem ser perfeitamente orientadas para um alvo. A invasão do cliente pelo terapeuta era um problema preocupante, ainda que fosse com a melhor intenção do terapeuta. Mas eu observava também o quanto os próprios clientes procuravam ser invadidos, como se eles quisessem que o terapeuta lhes dissesse alguma coisa, que ele fizesse ou lhes propusesse um trabalho.

Além disso, eu estava cada vez mais persuadido de que, na quase maioria dos casos, as pessoas tendem a fazer com que "o outro" diante deles os invada, e assim a pessoa pode evitar com toda segurança o "verdadeiro" problema , enfrentando e concordando com suas próprias concepções. Isto significa que muitos clientes evitavam assumir seus próprios pensamentos, ações ou não ações.

A concepção das pulsões

Em todos nós alguma coisa foi concebida. Mas a concepção em si é apenas o primeiro passo para o real, e não deixa de ser o primeiro passo essencial.

Cada instante é o nascimento de um novo instante. A continuidade existe graças a uma sucessão continua de nascimentos. Um instante perdido é um novo instante encontrado. E a história é a lembrança do que era, do que é, unicamente no imaginário. A realidade está perdida e uma nova realidade se constrói sobre o que foi.

A concepção concebe pela mediação do sentido, que pode se tornar real. O sentido existe, e o real espera a encarnação de tal sentido. Antes do nascimento de um ato, ele deve ser concebido. O real comporta ações e reações vindas de pré-concepções pertencentes a um mundo que freqüentemente é apenas sentido por nós e que não conhecemos. A ordem do caos, como se apresenta para nós, é inexplicável, e no entanto somos parte dele.

O nascimento de um pensamento tem sua origem não apenas no que é, mas também no que deve ser. Chamo a isso o simbólico, ou o mundo do simbólico.

A concepção inconsciente das pulsões constitui um sim do cosmos, essencial à vida enquanto ser humano. Continuamos a trazê-lo em nós para nos lembrar de que fomos concebidos na dignidade e no sentido de existir na coexistência, ainda que conscientemente, em um dado momento de nossa vida, manifestemos dúvidas sobre essa concepção tão essencial. Ainda não entendemos nem aceitamos suficientemente nossas pulsões no sim à encarnação, mas recebemos a ordem de viver. Portanto, o id não questiona a vida, ele vive, enquanto que nós, seres conscientes, damos voltas para saber porque.

Só quando estamos realmente ameaçados, ou quando sentimos esta ameaça da descontinuidade da existência é que o id recorre à violência para manifestar sua existência.

A essência da concepção é o sentido da coexistência, e assim a vida encarnada se manifesta através da fricção das diferenciações num diálogo de existência e coexistência para a continuidade em que matéria e espiritualidade são as duas faces de uma mesma moeda.

Uma não pode existir sem a outra. O isso não pode existir sem ter o reflexo oposto de tudo o que ele não é. Portanto nossos pensamentos podem ir onde o isso não pode seguí-los. O verbo e o pensamento podem muito bem não se entender sempre como bons amigos.

Um pensamento pode se manter dentro das possibilidades da encarnação e duvidar assim de si mesmo a partir de sua não realidade. Mas o isso obedecerá à ordem do sim para a vida, ainda que ele tenha que se tornar um sim à sobrevivência, e assim sendo, o isso pode destruir. Ele pode destruir até mesmo partes de si mesmo no seu impulso para o real. Então "alguma coisa" deste "isso" existe, qualquer que seja a deformação que ele tenha podido sofrer.

Assumir seus próprios movimentos, pulsões e desejos significaria assumir seu caos interior de forças em luta contra o sistema de valores do outro cronicamente introjetado. Era portanto graças a intervenções menos freqüentes e muitas vezes muito sutis de minha parte que sob todos esses conflitos podia aparecer uma pessoa que estava "escondida" e que não parecia existir.

Tratava-se da emergência de um Self, onde a pessoa podia dizer eu com um sentimento de autenticidade e de verdade. Mas, e eu repito esse mas, o verdadeiro self, em termos de realidade, pode ter muito pouco de realidade ou até mesmo nada.

Este "eu" autêntico é uma concepção do Self muito diferente da outra. Isto nos leva então a nos perguntarmos sobre sua origem e sua pertinência.

Concepções essenciais e culturais

Posso observar duas formas de concepções diferentes e em estreita relação. Uma, que é a concepção essencial da matéria, parte do postulado que "a partir de nada alguma coisa aparecerá". Está no coração da criação. A outra diz que "a partir de alguma coisa, alguma outra coisa aparecerá" ; é o que eu chamo de concepção cultural (compreendidas aí as mutações genéticas e biológicas). É a arte da criação. Em resumo, chamo a primeira de Concepção (com C maiúsculo) e a Segunda de concepção (com c minúsculo). Como no nascimento, a Concepção deverá existir para que todas as pequenas concepções possam se realizar, tornando possível por exemplo a criação de um feto, de uma criança, de um adulto, etc. Sou levado a crer que a Concepção existe escondida em todos nós, durante toda nossa vida, sob forma de espiritualidade essencial. Penso também que experimentamos somente de modo consciente a multiplicidade de pequenas concepções no caos aparente de nossa evolução cultural.

A origem da Concepção é um tema espiritual num contexto filosófico. Ela é experimentada pelo viés de uma experiência "sensológica" numa realidade relacional (as pequenas concepções). Em nosso funcionamento cotidiano, geralmente tentamos evitar esse tema fundamental, simplesmente porque não conhecemos nossa origem ou então porque temos a impressão de que não nos é dado conhecer esse assunto e refletir sobre ele. É assim que substituímos nossa busca da origem pela questão da pertinência.

Mas se voltamos à origem dos pensamentos, ou até mesmo se voltamos às concepções primitivas do processo do pensamento, uma pessoa não se diferencia de uma outra pessoa ou de um objeto unicamente a partir de um processo de pensamento. De fato, ela pode fazer a experiência essencial do eu e de sua razão de ser em sua relação com o outro e com o objeto. Não se trata unicamente da experiência "eu não sou o outro" mas é mais o "eu sou" que serve de fundamento para uma identidade e para uma criatividade fundamental com uma moral, valores e um sentido da existência na coexistência.

O pensamento, como condição prévia indispensável à existência da vida, está na base não somente da filosofia de Sócrates, o pai da filosofia, mas é também a viga mestra de todas as religiões que baseiam suas crenças na consciência da vida (o cristianismo, o hinduísmo, o budismo, o islã e outras). A consciência da encarnação, num sentido espiritual, implica numa concepção de vida e numa conceitualização do mundo e dos indivíduos como pessoas reais. A psicanálise revelou a importância das palavras "escondidas" do inconsciente, enquanto que as terapias psico-corporais focalizaram o interesse do sentimento e da experiência, mas também tentaram, assim como eu, ressaltar a importância do verbo e consequentemente, a da concepção das pulsões.

O verbo é o potencial disponível para a criação de uma nova realidade, seja ele expresso ou não. O verbo, a qualidade da experiência (sensações) e a compreensão (sentido) são valores fundamentais em todo caminho terapêutico3 e oferecem uma solução para substituição do modelo médico que tenta reequilibrar nosso estado do ser por meio de influências bioquímicas.

Idéia e realidade

As concepções pertencem ao mundo simbólico, precisamente porque não são reais, ou pelo menos ainda não reais. Mas o mundo simbólico tem a potencialidade de se tornar real. Um exemplo : vocês marcam um encontro com alguém para amanhã. Amanhã ainda não é real. Mas vocês tomaram uma decisão, vocês concordaram com a idéia de estarem presentes. Esta seria portanto a primeira fase.

A segunda fase seria, quando amanhã chega, encarnar a idéia, isto é , estarem lá. São muitos os que fazem projetos, mas acontece de não estarem lá para realizá-los. Por diversas razões pode haver um medo de ser e de estar . (cf. Heidegger "Dasein").

Na terceira fase vocês estão lá, e estar lá implica num impulso, (num desejo, numa pulsão, num objetivo, etc.) que é portador do porquê de sua presença. Mas talvez vocês tenham se esquecido, ou então sua atenção pode ter sido desviada do porquê inicial deste encontro. Esta terceira fase, o movimento, se caracteriza pela "ação interior" de começar a encarnar o sentido ( o significado) de estar onde vocês estão, graças à sensação do prazer do desejo. É a mesma coisa que preparar uma ação, como por exemplo, preparar-se para falar ou andar. Vocês estariam agora transformando seu desejo em realidade.

A quarta fase consiste em enfrentar qualquer obstáculo e ultrapassá-lo. É a da passagem do que está lá (a realidade efetiva) para a atualização de sua concepção (idéia, desejo, pulsão e projeto, etc.) numa nova realidade. A passagem comporta um realidade preexistente diferente do desejo que procuramos atualizar. Por definição isto leva, de certo modo, a uma espécie de fricção ( o obstáculo). É bastante provável que nesse momento de fricção difícil vocês percam a idéia que tinham, ou até mesmo o desejo de seu projeto inicial (idéia).

Em decorrência desse estado, vocês podem entrar numa luta, tentar evitar o conflito, retirar sua idéia de mudança ou até mesmo abandoná-la. E finalmente é possível que vocês simplesmente se adaptem àquilo que é a realidade atual (àquilo que ela revela, etc.) . Talvez vocês precisem de uma ajuda na passagem, uma outra concepção (idéia) melhor ou pior pode também se apresentar, ela vem de vocês ou de um outro (ou dos acontecimentos).

A quinta fase seria uma transformação, ela consiste na chegada de uma nova realidade com seu projeto (idéia) em parte ou na totalidade (união / reunião) .

Seu projeto se une numa nova realidade, em que a velha realidade existe na reunião, seja como memória, seja como uma realidade que se situa em outro lugar. É como sair de um espaço e passar para outro. Isto também se assemelha ao fato de ter falado ou de ter acabado uma ação – alguma coisa se completou. Mas é evidente que na maioria dos casos a transformação real das coisas pode ser mínima em relação ao que foi inicialmente desejado, etc.

II. AS CINCO FASES DO NASCIMENTO

Esses diferentes estágios aparecem de modo patente no nascimento real4. Uma criança é concebida pelo ato de amor. Mas evidentemente tal concepção poderia ser a manifestação de um desejo inconsciente e talvez nem um pouco de um desejo consciente. Às vezes, esta concepção pode ser vivida como um "acidente". Nesse momento o feto se encarna no útero, é a segunda fase. Ele se torna matéria (bioquímica e fisiológica, etc.). Então o feto, e desde o início o chamamos de bebê (na espera), leva em torno de nove meses para se desenvolver para se preparar para o nascimento.

O nascimento em si mesmo seria o ato da passagem. Ainda que ela dure pouco tempo, ela é a fonte de uma profunda mudança (de uma enorme fricção) na transformação em que ela implica, de vir "de dentro" para ir "para fora" . Ela encontrou um obstáculo (o outro) e ela se confronta com a manifestação, provavelmente ao mesmo tempo consciente e inconsciente, da concepção inicial do "sim à vida" . Quando o bebê chega, é a quinta fase, união / reunião. Após o nascimento, nessa nova fase, ele se relaciona ao mesmo tempo com um novo mundo e com "um mundo antigo" ( um mundo em que ele é totalmente contido e nutrido numa existência fusional) que era e continua a ser (na sua experiência referencial). A relação que ele tem com sua mãe se transforma e o mesmo se passa e de modo ainda mais patente na relação com seu pai "desconhecido" . A meu ver, este exemplo demonstra a importância da Grande Concepção e das pequenas concepções anteriormente descritas, bem como da potência do verbo enquanto pulsão na direção da encarnação.

A concepção

Assim, a fase da concepção é a primeira sobre a qual devemos nos debruçar, no que trata de nossa concepção fundamental enquanto pessoa pelo nascimento e encarnação espiritual, onde experimentamos nossas origens como filhos de nossos pais, de nossa sociedade, de nossa cultura, de Deus ou de qualquer outro tipo de crença. Essas origens não pertencem unicamente à humanidade considerada como uma espécie, mas também à própria existência da meta-realidade (Jean Guitton) de nosso universo.

Eu repito, é de importância capital dissociar as questões de origem e de pertinência. Assim, a criança ou a pessoa têm a impressão de ter vindo de seus pais, de Deus, de uma cadeia humana de acontecimentos inexplicáveis, etc., e fazem da história dessa cadeia seu primeiro quadro de referência.

Por outro lado, esta relação com a história, não será ela numa certa medida a "proprietária" da pessoa e de sua experiência como indivíduo em nossa sociedade atual ? Certas pessoas têm o sentimento de não possuir suas próprias vidas, nem pensamentos. Consequentemente, elas não se sentem autênticas. Elas não assumiram a propriedade de seus próprios pensamentos, atos e reações, ou até mesmo, num nível mais profundo, elas também não assumiram seu nascimento , sua existência, e verdadeiramente a possibilidade de que exista uma essência da concepção que se situa além do limite do ambiente parental e sociológico que pode ter se tornado para essas pessoas o único quadro de referência.

Assim a pessoa pode ter perdido qualquer contato consciente com suas próprias concepções (com um C maiúsculo e com os cs minúsculos).

É inevitável constatar que um grande número de nossas concepções são inconscientes, e é precisamente a razão pela qual a terapia psico-corporal pode ser muito eficaz para fazer emergir os desejos recalcados ou inibidos.

E ainda que nós não os compreendêssemos, podemos pelo menos assumir conscientemente o que vem de nosso inconsciente.

A encarnação

Nesta segunda fase, trata-se da existência física (como no exemplo do feto). Isto implica ser matéria e portanto estar aqui. E isto não é tudo, também decorre daí a aceitação de que fazemos parte de uma realidade, de que somos "pequenos", limitados e que temos limites. Devemos aceitar também que no interior desses limites temos um objetivo subtendido por um impulso que tenta encontrar o outro (os outros, os objetos) num mundo real de transações. A questão fundamental no nível existencial é de saber se dizemos "sim ao corpo", o que significa dizer sim ao fato de ter um corpo e de ser ao mesmo tempo contido e limitado num corpo, sabendo que o corpo possui "uma certa" mobilidade. De um ponto de vista filosófico, em nossa experiência sensológica íntima (nossa filosofia pessoal na realidade concreta) , é preciso que nesse estágio aceitemos o mundo e particularmente esse mundo, ainda que tenhamos o desejo de mudá-lo.

O movimento

Nessa terceira fase, o movimento, como no exemplo do feto / bebê no interior do útero, nós nos preparamos num movimento interior a ultrapassar as passagens da vida (inclusive os estágios de desenvolvimento, as relações com os outros, o casamento, a aprendizagem parental, as doenças e a morte, etc. ) para entrar numa outra realidade e construí-la. Nessa preparação o sentimento do eu e sua razão de ser através das sensações do prazer de si parecem-me fundamentais. Isto significa fazer a experiência de seu próprio corpo, não enquanto pessoa, mas enquanto eu com um objetivo (significação). O prazer de si não é egoísmo, mas representa um contato corporal com seus próprios desejos antes mesmo que os atos tenham entrado em contato com a "realidade exterior" . Como no exemplo acima, o feto é com certeza nutrido pela boa mãe inconsciente da mãe e ele adquire uma experiência fundamental da sensação de bem estar antes de entrar no "mundo real" .

O mesmo acontece com uma pessoa que se sente bem com seus projetos e pensamentos antes de falar em pô-los em prática. É provável que já nesse momento nós adultos duvidemos do valor de nossos pensamentos ou projetos, ou até mesmo questionemos nosso direito não somente de pensar ou de fazer, mas também nosso direito de existir.

A passagem

Na passagem, há a fricção. No entanto a fricção é também o encontro com uma realidade presente, o outro. A fricção é um problema, mas é também o desafio de confrontar com o real nossos desejos, projetos e intenções. Numerosos são os que, diante da passagem, bem como diante de uma dificuldade, começam a duvidar do valor de seu projeto. Estes perdem até mesmo o bom sentimento ligado à sua idéia e começam, seja a resignar-se, seja simplesmente a encarnar a dúvida de diferentes modos complicados. Certas pessoas se retiram até não estarem mais ali, ou então elas se questionam a respeito de seu verdadeiro direito de conceber qualquer coisa que seja diferente da realidade existente.

União – reunião

Sejam quais forem nossas dificuldades, os obstáculos ou as passagens a transpor, o que encontramos do outro lado é uma nova realidade, algo diferente do que era. É esse ponto que chamo de união / reunião, pois é a união com o que está do outro lado, bem como uma reunião imaginária com o que era antes. O antigo lugar ainda existe em nossa imaginação (memória, etc.), mesmo quando não estamos mais ali. Nessa fase, trata-se de chegar. Nesse nível há uma sensação de realização, ainda que essa nova realidade não seja a que havíamos desejado. Chegamos onde estamos. Algumas pessoas nunca têm , ou quase nunca têm a sensação segura de chegar.

É um momento precioso; o momento em que vocês podem se dizer "cheguei". A partir de todos os nossos sonhos, desejos e tentativas, a partir do que fizemos e do que não fizemos, talvez algumas vezes em nossas vidas tenhamos experimentado durante um instante uma certa paz por ter chegado.

III – APLICAÇÕES GERAIS

Utilizando o conceito das cinco fases, um amplo leque de possibilidades se abre no campo da psicoterapia.

Algumas pessoas falam muito, talvez façam projetos e nunca agem de acordo com sua palavra. Por exemplo, uma psicoterapia pode ser falada e não sentida. Será que a pessoa está lutando para clarear sua próprias concepções, idéias ou percepções do mundo e apropriar-se delas ? Mas se a primeira fase não foi ultrapassada e se não há encarnação, não haverá corpo. Cada palavra tem a possibilidade de não ter simplesmente sentido , mas ser também sentida como um sentido carregado de experiência. A meu ver, várias pessoas podem falar de seus problemas e girar em torno deles durante anos sem assumir verdadeiramente sua própria concepção, nem se dão o tempo necessário para que estes sejam vividos como uma experiência real. Por exemplo, algumas pessoas podem estar aqui sem estarem realmente aqui.

Para evitar que a terapia seja apenas verbal, o terapeuta poderia escolher ajudar seu cliente a dizer "sim" ao corpo, o que significa dizer sim ao fato de estar no seu corpo. Assim uma grande parte de nossos pensamentos inconscientes traduzem de fato a experiência do nosso corpo e são com freqüência negados por nossos pensamentos conscientes. Enquanto psicoterapeutas podemos ajudar uma pessoa para que ela entre em contato com as sensações, a linguagem e o verbo (com freqüência o verbo escondido) que vêm de seu corpo.

Ao invés de deixar um cliente "falar" durante anos, talvez fosse mais sensato ajudá-lo a estar em seu corpo para que ele possa sentir o que está falando e talvez então alguma coisa nova possa emergir.

A terceira fase, o corpo em movimento que supõe o prazer corporal do eu, é uma ferramenta que pode ser de grande interesse , por exemplo, para ajudar a pessoa a colocar seu corpo em movimento, em ação. Com freqüência nos surpreendemos em seguida com "o que vem do corpo" (eu me refiro a um grande número de exemplos que citei no livro "Eigentlich möchte ich" Boyesen/Huber Kösel Verlag München) .

A raiva escondida, emoções profundamente recalcadas e outras formas de expressão recalcadas ou inibidas podem ser liberadas e a pessoa se encontra então aliviada de um grande stress emocional e de conflitos psíquicos. A partir daí, um forte sentimento de identidade vai emergir na pessoa desde que ela possa compreender contra que obstáculo, mas também essencialmente "com que objetivo" esses sentimentos e essas expressões bloqueadas lutam quando ela tenta liberá-los. Nessa fase o trabalho se parece muito com o de Wilhem Reich e de Alexander Lowen. É a base da abordagem biodinâmica e que a meu ver é uma parte integrante da análise psico-orgânica.

A quarta fase se refere aos conflitos encontrados nas passagens. É uma fase transformacional na medida em que partimos de algum lugar para ir para outro lugar. Cada instante é o nascimento de um outro instante. Entretanto, com freqüência damos um novo nascimento a uma realidade passada. Há um equilíbrio a encontrar entre a história e uma nova realidade. Ambas vão existir, mas seria uma regressão crônica inconsciente esperar que amanhã seja como ontem.

Algumas pessoas têm uma filosofia da vida segundo a qual não deveria haver problemas. Isto me parece irrealista porque os problemas estão no coração do encontro com a realidade presente e esta última raramente se parece com as concepções que desejamos. Se as expectativas e a realidade se juntam, não seria mais necessário ter uma idéia.

Ter um desejo ou uma idéia, um projeto ou um propósito indica precisamente que há uma busca de modificação da realidade presente. Por definição, isso implica necessariamente numa certa nova realidade de fricção. Mas com freqüência a pessoa se perde precisamente nessa fricção, pois ela perde o contato com a concepção de suas pulsões ou de seus impulsos, ou não os assume mais.

É claro que a terapia poderia começar pela problemática da passagem, se para a pessoa o conflito se situa nesse nível. Eu não acho que devemos começar com a primeira fase, mas cabe a nós , enquanto terapeutas, sentir onde está a pessoa em sua terapia, onde ela quer ir e quais são seus problemas. Trata-se de ouvir e de perceber as demandas da pessoa e a relação que ela cria com o outro (os outros).

Estou convencido de que o isso na pessoa está sempre pronto para a confrontação, pois o id é o verbo que traz o movimento da concepção e integra desta maneira a realidade da fricção. Em contrapartida, uma pessoa pode combater conscientemente este verbo e lutar contra suas próprias pulsões em compromissos crônicos, o que a leva a sentir-se deprimida, desmoralizada ou até mesmo a não se sentir. Em terapia, o que me parece com freqüência difícil é deixar uma coisa para viver uma outra coisa.

É uma etapa transformacional, alguma coisa muda. Mas não podemos mudar alguma coisa sem, de alguma maneira, "ver" aquilo que soltamos. Do meu ponto de vista "a neurose também pede para ser amada" e nenhuma passagem poderá se fazer enquanto essas partes da pessoa não tenham recebido uma escuta e encontrado uma certa forma de expressão. Só então a pessoa poderá eventualmente "ver" que esses antigos contratos talvez não sejam mais válidos nem necessários.

Vejamos agora a quinta fase, a chegada. Algumas pessoas chegam , mas elas chegam apenas por alguns instantes e já podem imaginar um novo problema. Elas podem portanto não se dar tempo de ver onde chegaram antes de se precipitarem para outro lugar. Concluindo-se, correm em suas vidas permanentemente. É verdade que, quando finalmente vocês chegam à praia, virá uma mosca, a areia provoca coceiras na pele, ou então vocês têm fome, etc. Mas se não podemos nos dar tempo para sentir prazer onde chegamos, acho que utilizamos mal o pouco de tempo que nos foi dado. Como conseqüência, as concepções que temos já vêm manchadas pela decepção de "termos chegado no lugar errado".

Em psicoterapia, tanto no plano do corpo quanto no do conceito, o eu é interpelado de duas maneiras : pelo sentido e pela sensação.

Que sentido eu dou para o fato de estar aqui e que tipo de sensação experimento sendo o que sou, aqui onde estou?

Esta quinta fase está diretamente ligada àquilo que eu chamo de estado de orgonomia (o orgono de W. Reich), o estado de estar no prazer do finalizado. Decorre daí, é claro, o trabalho extremamente importante sobre a relação intima mãe/filho, pai/filho, o amante, o objeto do amor, a relação com a criação e com qualquer forma de atividade, de criatividade e de arte, quando elas estão diretamente ligadas a um profundo sentimento de pertencimento cósmico.

Diagnósticos

Podemos fazer as seguintes constatações :

Algumas pessoas revelam através de sinais que elas não chegam nunca ( quinta fase, união/reunião). Pode ser que elas não obtenham nenhum tipo de satisfação ou não mostrem nenhum contentamento, mas também em função da angústia, elas esperem e até mesmo criem um outro problema antes de acabar um ciclo. O medo da fusão ou o seu contrário, um desejo muito vivo de paz fusional irrealista podem indicar que a pessoa não chegue a nenhuma outra forma de fusão (união/reunião). Sintomas tais como trabalhos inacabados, uma recusa de consideração pelo fruto do seu trabalho, uma dependência total a um "outro imaginário", etc., e com freqüência uma compensação que se traduz por uma hiperatividade, depressão, ou uma angústia extrema, são reveladores desta falta.

Na quarta fase (passagem), os sintomas serão uma luta permanente contra o obstáculo, ou o oposto, uma evitação crônica dos conflitos. A pessoa pode começar a atualizar seus projetos, seus impulsos, etc., mas num certo estágio ela entra na raiva, na destruição ou até mesmo na auto-destruição. Nessa fase podemos encontrar sentimentos paranóicos, como se a pessoa estivesse sempre limitada por obstáculos, como se o mundo fosse feito de lutas e só de lutas.

Na terceira fase ( o movimento), a passividade, a falta de prazer corporal e até mesmo a falta de sensações corporais podem constituir os sintomas dominantes.

A pessoa não tem o sentimento de si mesma, ela experimenta o mundo mais numa atitude passiva e introvertida em que as pulsões do desejo são recalcadas no inconsciente, o que com freqüência gera diversos problemas somáticos. Na verdade a estratégia da pessoa consiste em tornar-se "o menor possível" nesse mundo vasto e incompreensível, e o objetivo é a sobrevivência. A pessoa não confia na espontaneidade nem em seus impulsos, e ainda que acessos de raiva e de revolta possam se produzir, a pessoa não compreende esses "eventos" , é como se eles não se relacionassem com ela. Seu corpo se torna rígido e entorpecido, ou então ele se torna mais passivo e a pessoa fica frágil e deprimida no plano emocional. É como se essa pessoa esperasse que alguém lhe abrisse "uma porta" pela qual não se dá o direito de passar sozinha. A realidade é o que é e nada de novo pode se produzir, sobretudo alguma coisa que a pessoa tenha iniciado.

Na segunda fase ( a encarnação), a grande questão é saber se a pessoa pode dizer sim ao corpo e consequentemente sim à matéria e ao fato de estar na realidade.

Muitas pessoas nessa fase são ditas esquizóides. Significa que elas podem funcionar muito bem no mundo, mas elas não se sentem presentes. Nesta cisão, a pessoa pode ser ativa "aos olhos dos outros" e não a seus próprios olhos. Há várias maneiras de recusar a encarnação. Uma maneira consiste simplesmente em negar a realidade, uma outra é de se esconder tentando manter-se afastado da sociedade e das interações com os outros. Algumas pessoas poderão procurar a espiritualidade como se elas tentassem "retornar à origem". Isto pode ser seu meio de encontrar "a razão" de viver, o que lhes permite entrar em contato com um sentido em suas vidas.

Nesse caso, as pessoas podem ter grandes dificuldades em tolerar a emergência das pulsões, de desejos e de impulsos, pois esses impulsos encarnados não têm o direito de existir. Como compensação, elas constróem uma "imagem do mundo" paradisíaca, ou de uma elevação imaginária para compensar o fato de que na realidade elas sejam muito pequenas (como o somos todos nós) e fundamentalmente intimamente pessoais. Ser "pessoal" e assumir o fato de ter necessidades pessoais é fonte de grande conflito para essas pessoas.

O medo de existir pode estar na origem dessas dificuldades, mas outras razões também estão ligadas à recusa muito precoce das necessidades primárias, tais como o fato de ser carregado e alimentado com uma sensação de amor. De fato, para essas pessoas, nos casos extremos, o corpo não existe. As palavras têm então a aparência de compensação, seja para justificar que "as coisas existem" ou que "as coisas não deveriam existir" , provavelmente porque a pessoa nutre a esperança inconsciente de ter também o direito de existir. Para essas pessoas as palavras servem, com freqüência, para negar o prazer e as necessidades primárias.

Os problemas encontrados na primeira fase ( a concepção) são com certeza muito corriqueiros em nossa sociedade, em que a religião e os dogmas tomaram o lugar da espiritualidade que poderíamos ser tentados a testemunhar. Pode-se até mesmo considerar que certas religiões ou sistemas de crenças repousam sobre dogmas sem atribuir importância fundamental ao contato direto do indivíduo com a essência.

Apesar de tudo, e levando-se em conta que sabemos pouca coisa sobre a Concepção (dispomos de várias descrições bíblicas que nos mostram as ambigüidades, bem como um certo número de teorias científicas que vão das "teorias da singularidade" às "teorias de catástrofe"), o principal conflito vem da experiência de que a autoridade pertence aos outros e não à pessoa. E se ela pertence a Deus, a pessoa tem a experiência de que "Deus não está do seu lado".

Nas problemáticas ligadas a esse tema, pode-se ter a experiência de ser uma criança não desejada, como se a pessoa tivesse nascido por acidente ou por um incidente sem significação. Assim, na realidade, sua vida é guiada pelo acaso e pelos acidentes. As pessoas podem ter uma grande culpa não somente pelo que fazem ou não fazem, mas também porque existem. Sua vida pertence ao "outro" (os pais, etc.) e ela tem grandes obrigações a cumprir. O discurso para ilustrar isso poderia ser "alguém decidiu por mim que eu devo viver e eu tenho que viver".

As pessoas tenderão a ter uma profunda falta de identidade e se identificarão intensamente com os outros . Suas vidas, provavelmente feitas de "banalidades", não sairão do enredamento dos problemas ordinários do cotidiano e serão destituídas de sentido. A pessoa pode muito bem ignorar esse problema, pensando ingenuamente que essa pessoa não é ela, até o dia em que o falso-self se desagrega.

Na crise, a pessoa irá ou para a psicose, o alcoolismo, ou para outras formas de dependência ligadas à droga, ou ela afundará numa grande crise de identidade. Entretanto há grandes chances de que seja a própria crise que coloque a pessoa em contato com a fagulha de profundidade que constitui o princípio fundador de seu ser. Nesse caso a crise que a pessoa atravessa serve para lembrar que "isto não pode continuar assim" e que "alguma coisa deve mudar", ou então é preciso que eu mude.

Muitas pessoas não abordarão esse tema conscientemente nem se questionarão, em nossa vida estamos com muita freqüência ocupados em "fazer a vida" que não temos tempo de "viver a vida". Assim, na maior parte do tempo continuamos a falar por falar e a levar uma existência superficial enquanto que nosso "eu" autentico se esconde e fica bem protegido sob as palavras e atos. Se devêssemos ter interesse por este território em função de seu valor fundamental, poderíamos então dar novamente à nossa vida um certo sentido de seu valor. A questão seria então saber "como viver na superfície mantendo o contato com a profundidade? "e não, penso eu, "como viver a profundidade na superfície? "

O ciclo psico-orgânico

As fases que acabo de descrever podem ser identificadas no ciclo psico-orgânico. A primeira fase se situa nos pontos 9 e 1 (orgonomia e necessidade). A segunda fase corresponde ao ponto 2 ( acumulação) . A terceira fase se desenvolve nos pontos 3, 4 e 5 (identidade, força e capacidade). A quarta fase corresponde aos pontos 6 e 7 e parcialmente ao 8 (conceito, expressão e sentimento). Finalmente, a quinta fase toca o ponto 8, parcialmente, e o 9 ( sentimento e orgonomia).

Se nos lembrarmos de que o círculo é uma espiral, fica claro que em nossa experiência os pontos do círculo interagem e estão em estreita relação. É a razão pela qual, por exemplo, certos impulsos e pulsões (necessidade ponto 1) se transformam em projetos conscientes (conceito ponto 6), e que a concepção profunda e fundamental da existência (concepção) se dá no nível do inconsciente na orgonomia ( ponto 9). Trata-se então de saber se podemos encontrar a identidade (ponto 3) desta concepção, afim de que ela seja sentida corporalmente (encarnação, acumulação ponto 2) em seu movimento para (através do conceito) o outro ( objeto de amor, sentimento ponto 8, etc.) .

Uma psicoterapia global

Concluo que as cinco fases permitem apreender as escolhas que um psicoterapeuta pode ser levado a efetuar para não cair na armadilha de uma terapia unicamente corporal, nem naquela de uma terapia unicamente conceitual, verbal ou psicanalítica. As intervenções do terapeuta devem, a meu ver, ser guiadas por uma abordagem analítica da psicoterapia, o que para mim implica no estabelecimento de um diagnóstico e o estudo do processo a fim de que as intervenções ou a não intervenção do terapeuta sejam moduladas em função das demandas e da problemática do paciente, e não se baseiem na própria transferência do terapeuta sobre os métodos ou escolas de pensamento.

A análise psico-orgânica não tem como fundamento a análise da transferência cliente/terapeuta como é o caso da psicanálise, mas ela se baseia mais especificamente na análise das problemáticas consideradas sob diferentes eixos, o que não exclui a análise da transferência e da contra-transferência. Isto dito, espero que minha experiência como terapeuta no contato com a psicoterapia em suas múltiplas formas possa enriquecer de uma maneira geral o campo maior da terapia psico-corporal e da psicanálise.

Concretamente, se utilizamos como referência as cinco fases acima, penso que observando o que diz ou faz o paciente, saberemos em que fase ele se encontra num dado momento ou mais particularmente que fase é para ele capital ou conflitante.

Acrescento que fico constantemente surpreendido, em minha prática, ao ver o quanto essas "cinco etapas para o real" (as cinco fases do nascimento) estão ligadas ao nascimento real de meus clientes, como se, desde o início, uma certa forma de filosofia de vida pessoal fosse elaborada tanto no plano físico como psicológico.

Observei que pacientes reproduziram por si só certos esquemas de seu próprio nascimento, e eu insisto em sublinhar esse fato; com uma leve ajuda e um leve suporte de minha parte, eles se transformaram e permitiram-se descobrir e viver outros aspectos de si mesmos ainda não realizados e evolutivos.

E se mudanças reais não aconteceram, eu quase sempre vi um certo sentimento de autenticidade aparecer onde o "Eu" dizia bom-dia ao mundo.

1 – Paul Boyesen (1993): Os cinco passos para o real Adire n. 9

2 – sensologia : campo de estudo do sentido da sensação em nossa vivência pessoal de nossa realidade imediata.

3 – Paul Boyesen : O corpo de palavras in Manual tomo 3 .

4 – Observem que durante a formação de psicoterapeutas da EFAPO, os estudantes têm a oportunidade de experimentar um trabalho psico-orgânico de nascimento. Encontram-se aí as cinco fases aqui descritas. (J.B.)

* - Paul Boyesen é psicoterapeuta, fundador e diretor da Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica.

Artigo extraído do "Manuel d’Enseignement " – Tome 3 Ecole Française d’Analyse Psycho-Organique

Tradução – Inesita Machado

Revisão – Silvana Sacharny

Todos os direitos reservados pelo autor.

 
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